Augusto Pinheiro

As modificações conceptuais e concepcionais dos estudantes na formação inicial dos docentes

 

Ao longo da formação inicial de docentes, espera-se que os estudantes realizem um conjunto de evoluções no seu modo de pensar a profissão, as situações educativas em geral e os temas relacionados com as diferentes áreas da docência e as respectivas didácticas específicas.

Estas evoluções podem ser estudadas segundo diversas perspectivas: a) modificações nos modelos mentais; b) reparação de conceitos incorrectos; c) reorganização do sistema de conhecimento ou da ecologia conceptual; ou d) apropriação de modos de utilização de utensílios pertencentes à cultura da educação.

Sem prejuízo de podermos considerar estas diferentes perspectivas como complementares e não antagónicas, adoptamos como ponto de partida da nossa reflexão a perspectiva sociocultural das mudanças conceptuais para explorar o modo como os estudantes das formações iniciais de docentes se familiarizam gradualmente com um conjunto de utensílios conceptuais e como começam a aperceber-se do modo como esses utensílios são utilizados.

Interessa-nos ainda explorar a diferença entre as modificações conceptuais e concepcionais que nos permitem compreender o sentido das contradições existentes no interior do discurso produzido por estudantes e ex-estudantes em situação de entrevista, relativamente às suas concepções do processo de desenvolvimento/aprendizagem e às orientações educativas que prescreveram. Estas contradições parecem ser um indicador do carácter mais ou menos efectivo das modificações observadas nessas suas concepções. Podemos afirmar que a existência ou a ausência de contradições no interior do discurso produzido pelos estudantes e ex-estudantes entrevistadas pode revelar a natureza das modificações que o seu pensamento sofreu. Assim, as modificações puramente conceptuais podem conduzir a representações múltiplas (e até antagónicas) dos objectos do pensamento, enquanto que as mudanças concepcionais são aparentemente expressas em termos que não se opõem, que não são portadores de sentidos incompatíveis.

Nesta ordem de ideias, colocamos as seguintes questões: até que ponto as modificações desejáveis observadas e atribuíveis à formação inicial não passam de reparações de conceitos, de ajustamentos estratégicos do discurso dos estudantes ao discurso dos formadores? Ou será que essas modificações são verdadeiras transformações do pensamento dos estudantes, ou seja, profundas renovações das suas concepções que pressupõem o abandono das concepções prévias?

Estas interrogações conduzem-nos a uma posição parcimoniosa relativamente aos dispositivos de observação das modificações do pensamento dos estudantes num plano exclusivamente cognitivo; no que se refere às formações de docentes, profissionais implicados na relação humana, parece mais útil e adequado realizar uma observação dos efeitos das formações direccionada para o conhecimento do modo como os dispositivos das formações iniciais prepararam esses profissionais para um trabalho sobre si em relação com o outro, em torno de um saber mediador.

Estas interrogações conduzem-nos ainda a considerar o destino dos objectos das aprendizagens feitas pelos estudantes segundo uma perspectiva fenomenológica – psicanalítica da aprendizagem. Em vez de se compreender a aprendizagem unicamente como uma modificação do comportamento e do conhecimento de uma pessoa, trata-se de conceber a aprendizagem como a passagem de objectos do conhecimento do exterior para o interior através da pele psíquica.