O início do milénio tem marcas contraditórias no que se refere à interacção entre o homem e o computador. Ao mesmo tempo em que existe um vertiginoso crescimento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) e elas “invadem” a vida do Homem – desde a infância, experimentamos a solidão e o medo das relações, da violência, da pauperização, do “outro”, que nos defronta e nos é indispensável. Cresce o número de horas em que ficamos em frente às “telinhas” (da televisão, dos videogames e, principalmente, do computador). Em determinados momentos as crianças e os jovens já abrem mão, coisa inconcebível há alguns anos atrás, da interacção com o seu grupo de pares, para interagir com os meios electrónicos.
Para esta pesquisa estudámos a interacção à luz de Vygotsky, que enfatiza a dialéctica entre o indivíduo e a sociedade, o intenso efeito da interacção social, da linguagem e da cultura sobre o processo de aprendizagem. Este processo é fundamental para a interiorização do conhecimento e a transformação dos conceitos espontâneos em científicos. Tomamos como base o referencial teórico piagetiano sobre o período do desenvolvimento das operações concretas da criança, em que, segundo o autor, ocorrem grandes avanços no processo evolutivo emocional, os vínculos com grupos de pares tornam-se evidentes e a diminuição do egocentrismo cognitivo e social permite à criança “construir logicamente”, estabelecendo relações que lhe permitam coordenar diferentes pontos de vista (dela mesma ou de pessoas diferentes) e integrá-los de maneira lógica e coerente.
Realizámos a investigação com uma amostra de doze crianças (seis meninos e seis meninas), alunos de uma escola pública do Rio de Janeiro. Em doze sessões elas resolveram problemas sobre diferentes tipos de operações lógicas. Solicitámos, numa entrevista semi-estruturada, que as crianças enunciassem associações livres em relação ao contacto com o computador. As respostas foram submetidas à análise do discurso e definimos duas categorias analíticas. Na primeira, que chamámos de VERDADEIRA INTERACÇÃO, detectámos expectativas de avanços na aprendizagem, progresso social e financeiro e expansão do universo comunicativo. À segunda, mais fantasiosa, chamámos de DEPENDÊNCIA DIGITAL, e foi caracterizada por referências à ficção científica (robôs, ETs, clones).
Concluímos estabelecendo, em consonância com os estudos de Michael Parsons, uma série de estágios de desenvolvimento da interacção humano-computador e apresentamos algumas alternativas para a facilitação e o enriquecimento da verdadeira e profícua interacção da criança com o computador.