Fernando Luís Santos

A aprendizagem nas mãos da criança: a utilização de ferramentas tecnológicas no ensino e na aprendizagem

O acto de aprender é básico para o desenvolvimento humano; nesta sociedade complexa em constante mudança é urgente dotar as nossas crianças das ferramentas necessárias para a sua adaptação. Contudo, a escola mantém-se inalterada, não respondendo às necessidades desta época.

A principal causa desta mudança (a tecnologia digital) também parece fornecer algumas soluções: quando a criança tem um computador com ligação à rede, tem também uma poderosa ferramenta de desenvolvimento e de participação; quebram-se barreiras físicas e esta pode aprender literalmente com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo; pode aceder a material de estudo de qualidade, a material actualizado e pode desenvolver as suas capacidades.

O que lhe falta não é capacidade, são oportunidade e recursos. Colocar um instrumento como o Classmate Magalhães nas mãos de uma criança é contribuir para tornar o mundo melhor, embora por si só não chegue. É necessário dotá-la de competências para uma utilização profícua. Ligar este pequeno portátil à rede, utilizando plataformas de aprendizagem (por exemplo a Moodle) como base para a construção de uma rede social de partilha de conhecimento, promovendo o debate e a partilha de ideias de forma relativamente livre e na qual se podem juntar professores, pais, encarregados de educação especialistas, etc., é um modelo que salta para fora das paredes da escola, criando uma verdadeira comunidade de aprendizagem tornando a criança, como defende Papert, num epistemólogo no sentido que Piaget defendia na sua epistemologia genética.

Outra dificuldade da aplicação desta solução é o deslumbramento tecnológico em que a nossa escola vive. Existem os computadores, os quadros interactivos, os softwares educativos, a vontade, mas esbarra tudo na utilização efectiva desta tecnologia com base em estratégias didácticas, na sua falta de ligação com o que devia ser realmente uma escola tecnológica. Nas palavras de Sugata Mitra, um médico vindo do século XIX sentir-se-ia completamente perdido num hospital hoje, mas um professor sentir-se-ia em casa.

Um dos objectivos da escola deve ser o de fomentar formas de vida que possam beneficiar a sociedade como um todo. Deve promover a utilização de ferramentas tecnológicas, de preferência com software livre pois este permite que as crianças aprendam como este funciona. Espera-se que a escola ensine factos e competências essenciais, mas a sua missão fundamental é ensinar pessoas a serem bons cidadãos e bons vizinhos – a cooperar com outros quando necessitem de ajuda. Na área da educação isto significa ensinar a partilhar conhecimento. No ensino básico, acima de tudo, deve-se incutir a máxima «Se aprendeste qualquer coisa, deves partilhá-lo com os outros».

Claro que a escola deve praticar aquilo que ensina: todo o conhecimento utilizado na escola deve estar disponível para as crianças copiarem, levarem para casa e redistribuírem fora do âmbito da escola. E a tecnologia permite isso. Ensinar as crianças a utilizar o conhecimento e a partilhar na comunidade é uma lição de civismo.