“Indecifrável fim de tarde, este... Sinto-me morrer entre anúncios de cálidos Verões e ofegante Outonos. Apetecia-me que me acompanhasses até ao pátio solarengo da minha infância. Temo que, se só, esta viagem não tenha retorno e me afunde na turbulência do vento norte.”
Precisamos de nos contar para sermos. De narrarmos a miragem do nosso Eu reconstruído. De compormos as performances que medem e registam a nossa trajectória pessoal e colectiva. Precisamos de preservar a incisão da nossa pegada ecológica, neste espaço e tempo de viver. De mantermos a memória da nossa personagem, mesmo que desfocada pela luz da ribalta, nos diferentes cenários de ser actor. Serres, M., (2008) refere que “a relação fundamental com a vida e com o corpo, quer seja de concordância ou discordância, acompanha a constituição interna do tempo… (o nosso)” . A aparente finitude ou transposição dos ciclos. Os períodos de transição.
Na adolescência e na velhice os processos genético biológicos têm mais força, na regulação do desenvolvimento, do que os de natureza sociocultural. Gineste e Pelissier (2008) referem o adolescente como alguém que vive com temor e insegurança o desenvolvimento do seu corpo. A desarmonia do processo de transformação pela percepção das mudanças físicas e dos (re)arranjos, emocionais e psicológicos envolvidos, expressos no receio de suportar o olhar do outro e do seu julgamento. No envelhecimento existe igualmente o confronto com as transmutações assinaladas pelas fragilidades físicas, a decrepitude, as perturbações ao nível cognitivo e da memória que afectam o equilíbrio físico e emocional. Percursos de dúvidas sem fim à vista. O futuro afigura-se incerto e o temor do desconhecido, da ausência do amor ou do desamor, implica que sejam mobilizados elevados recursos, afim de poder encarar estas fases tão significativas do evoluir humano.
Na adolescência como na velhice há uma identidade a (re)compor, marcada por eventos que surgem constantes: a profissão que se quer conquistar ou se perdeu, o trabalho ou a falta dele, a família e os amigos, que ainda não são ou já partiram. A aparência física mobiliza a atenção como “focus” de grande investimento, para conquistar ou não perder os afectos, para entrar ou se manter na história que se quer contar. Desde a infância que a necessidade de confirmar a aprovação social conduz à inquietante preocupação das pessoas em se ajustarem às tendências e aos figurinos dos ideais de beleza. É necessário actualizar a imagem, construir ou retocar a pintura do corpo através da mente (Schilder, 1935/1950).
À medida que se estabelecem itinerários na cartografia do corpo ou nos espaços da memória, refaz-se o passado e reinventa-se o futuro de forma menos inquietante. Aos episódios marcantes da maturação neurológica dos primeiros anos, puberdade/adolescência, juntam-se os factos de natureza psicossocial como a entrada na escola, profissão, casamento, reforma viuvez, a ausência ou separação dos amigos (Baltes, Comelius e Nesselroade, 1979; Baltes, Reese e Lipsitt, 1980; Lerner, 1983). Baltes e Baltes (1989) reelaboram abstracções mais refinadas sobre a actuação das determinantes genético-biológicas e socioculturais do desenvolvimento: 1) Os aspectos ontogénicos e a interacção dinâmica entre factores biológicos e culturais que mudam ao longo da vida; 2) A mobilização de recursos que passam da ênfase no crescimento (infância/juventude) à ênfase na manutenção ou regulação das perdas (velhice); 3) A actuação sistémica dos mecanismos SOC, selecção, optimização, compensação, para um envelhecimento bem sucedido. O ciclo parece fechar-se em processos sempre dinâmicos em que os extremos se tocam e articulam. A narrativa humana precisa, para fazer sentido, da memória e balanço. Contar-se para SER.