Edgar Morin

Apresentação sintética dos conceitos-chave do pensamentode Edgar Morin

A crise do paradigma da simplificação

A reflexão epistemológica de Edgar Morin parte do diagnóstico da crise daquilo a que chama o «Paradigma da Simplificação», ou seja, o modelo de produção, organização, validação e transmissão do saber que esteve na base dos prodigiosos avanços das ciências e da tecnologia dos últimos 300 anos.

Os princípios e as regras desse paradigma, que foram, no essencial, enunciados no século XVII, não se restringem à ciência. De facto, estruturam o modelo de pensamento que conforma a visão de mundo e a própria organização daquelas que se designam por sociedades desenvolvidas.

Em grande parte, através da escola, os princípios e as regras desse paradigma foram – e continuam a ser – assumidos como uma «segunda natureza» – isto é, como o único modo possível de conceber o real e de ordenar a acção sobre o mundo.

Mesmo quando não são expressamente enunciados ou conscientemente assumidos, o princípio da não contradição, as concepções lineares de tempo e de causalidade, da validação empírica do conhecimento, da divisão dos problemas em questões mais simples, informam não apenas a ciência, mas também a organização do trabalho a visão de mundo dos homens e mulheres «comuns».

Liberta dos impasses das grandes questões metafísicas, a ciência progride através da separação dos problemas e da divisão em disciplinas com objectos delimitados. O sistema de ensino reproduz esse modelo disciplinar e induz os alunos, desde cedo, à escolha entre áreas “vocacionais.” A economia desenvolve-se através da divisão do trabalho e da especialização.

Se tudo isto traz enormes progressos, conduz também àquilo a que Morin chama uma «hiperespecialização» cujos custos são, a diversos níveis dramáticos.

Excessivamente especializadas, as ciências deixam de ser capazes de comunicar entre si, e a imensidão de saberes que produzem deixam de poder ser integrados em visões globais da realidade. Assim, as ciências naturais produzem todos os dias novos e espantosos conhecimentos, mas não os conseguem ordenar às suas grandes questões originais: As ciências sociais procuram imitá-las na especialização e nos métodos e, nesse processo, esquecem-se da sua pergunta fundamental: o que é o humano?

A escola negligencia a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança.

A especialização do trabalho fecha cada vez mais os indivíduos em áreas restritas de competência e induz o desinteresse cívico e a ignorância (sob a forma das «ideias feitas») acerca de outras dimensões da vida individual e colectiva.
Tudo isto produz aquilo a que Morin chama a «inteligência cega», isto é, um conhecimento sem consciência de si mesmo e incapaz de gerar uma visão global da realidade.

A gravidade dessa «cegueira» é que se constituiu numa ameaça para a sobrevivência da humanidade e para a preservação dos equilíbrios naturais. Assim, a ciência e a tecnologia, que tantos benefícios produziram, tornaram-se também em agentes do perigo da eliminação global da humanidade, seja através das armas de destruição massiva, seja através da possível ruptura do ecossistema planetário.

A situação é ainda mais difícil porque «cabeças feitas» segundo o paradigma da simplificação dificilmente podem posicionar-se num ponto de vista a partir do qual seja possível alterar este estado de coisas. (Assim, é apenas normal que aqueles que assumem funções de responsabilidade global, não tenham –aparentemente para grande espanto de alguns – a «visão estratégica» ou a «capacidade de liderança» para vencer as crises e superar as ameaças que decorrem do próprio modelo de pensamento e de desenvolvimento de que eles mesmos são um produto).

A emergência do Paradigma da Complexidade

Para Edgar Morin torna-se claro que é preciso opor ao paradigma da simplificação uma nova forma de pensar que seja capaz de apreender a complexidade do real.

Ainda que trate esse tema em diversos textos, é na sua obra maior, O Método (seis volumes, publicados entre 1977 e 2004), que Morin apresenta sistematicamente o novo paradigma da complexidade que, como diz «emerge» por entre as fissuras do pensamento simplificador ainda dominante.

É na evolução da própria ciência que Morin encontram a mais clara evidências da falência da simplificação e da emergência desse novo paradigma: a microfísica depara-se com fenómenos inexplicáveis a partir do princípio da contradição e mostra que não é possível separar a acção do sujeito da produção de conhecimento, a astronomia põe em causa a noção de temporalidade linear, a biologia e as novas ciências da informação e da computação evidenciam que os fenómenos de se ocupam não podem ser reduzidos a relações de causalidade eficiente, as ciências sociais e humanas debatem-se com impossibilidade da redução dos acontecimentos históricos a leis e com as dificuldade de lidar com fenómenos como a acção a partir de métodos quantitativos.

Por toda a parte, são postas em causa as concepções tradicionais de objectividade, de lei científica, de determinação causal e as próprias barreiras disciplinares das ciências. Num aparente paradoxo, é afinal o desenvolvimento da ciência simplificadora que mostra que a realidade é demasiado complexa para ser compreendida e explicada pelo paradigma da simplificação.

A partir de uma impressionante informação sobre diversos campos da ciência, da recuperação de questões e ensinamento da filosofia e sobretudo de um notável trabalho de organização de elementos aparentemente sem relação entre si, Morin procura aclarar os princípios e o método de uma nova forma de pensar cientificamente o real e de acolher a sua complexidade.

A complexidade: os conceitos-chave de «dialógica» e a «recursividade»

O desafio da complexidade clarifica-se: trata-se de ser capaz de pensar o real como um todo e não de o reduzir arbitrariamente a elementos redutores; trata-se de apreender o real na sua unidade e multiplicidade ou, como diz Morin, na sua «unitas multiplex» em lugar de insistir em retalhá-lo em partes; trata-se de saber pensar o imprevisível, o circular, o recursivo, ou seja, o que escapa às concepções tradicionais de determinação causal e de tempo linear; trata-se de quebrar definitivamente as barreiras disciplinares e de construir uma ciência pluridimensional e transdisciplinar.

Mas importa, antes do mais, esclarecer a lógica do novo modelo de ciência que ainda se anuncia confusamente.

É assim que Morin formula os conceito-chave de dialógica e recursividade:
Por oposição ao princípio da não-contradição a dialógica é «a unidade complexa entre duas lógicas, entidades ou substâncias complementares, concorrentes e antagónicas que se alimentam uma da outra, se completam, mas também se opõem e combatem.» (O Método, vol.5)

Pensar dialogicamente é compreender que a realidade se constitui, modifica, destrói e regenera a partir de princípios e forças contrárias (por exemplo, todos os fenómenos e sistemas naturais ou humanos obedecem a uma ordem que foi produzida a partir de uma desordem inicial que, por sua vez, resultou da destruição de uma ordem anterior – ordem e desordem não podem ser pensados separados separados, mas como um par que na sua relação dialógica produz as infinitas configurações e modificações do real).

Por oposição ao princípio determinista da causalidade linear (todos os fenómenos têm uma causa e são, por isso explicáveis em relações particulares de causa-efeito; numa relação de causalidade particular há fenómenos determináveis como causa e fenómenos determináveis como efeitos, sem que essa relação se possa inverter: A é causa de B. B pode ser causa de C, AB podem ser causa de D, mas B não pode ser causa de A, C causa de B, D causa de AB) é preciso pensar a recursividade ou, seja, a possibilidade de a causa agir sobre o efeito e de o efeito agir sobre a causa.

São exemplos de aplicação deste conceito difícil para os nossos hábitos de pensamento, a concepção de reacções complexas, como as organismo/meio ou indivíduo/sociedade como relações recursivas em lugar de persistir, por exemplo, na estéril discussão sobre se são os indivíduos que produzem a sociedade ou se é esta que produz o indivíduo.

Pensados recursivamente, um conceito como o de adaptação permite pensar iterativamente a relação organismo/meio; um conceito como o de socialização designa a dupla acção do indivíduo sobre a sociedade e da sociedade sobre o indivíduo.