Françoise Biachi

«Da obra ao ciclo pedagógico de Edgar Morin»

A preocupação de reformar o ensino situa Edgar Morin na tradição dos autores humanistas franceses, que percorre o Renascimento e o Iluminismo. Podemos, no entanto, perguntar qual é a origem do seu interesse particular por esses problemas e qual é a sua singularidade.

Essa preocupação marca a sua obra desde os anos sessenta. Podemos encontrá.la mencionada desde Introduction à une Politique de l’Homme (1965) e Le Vif do Sujet (1969). A necessidade de reformar o ensino parece-lhe então indissociável do projecto de construir uma antropologia geral – e partir dela uma antropopolítica – pois é a ciência que faz as perguntas fundamentais sobre a natureza do homem e o seu desenvolvimento.

Toda a obra do filósofo, e em particular os seis volumes de La Méthode (de 1977 a 2004) constituem assim o sistema conceptual indispensável para repensar o «ensino eduativo», cuja trilogia pedagogia enuncia desde logo a missão e o objectivo geral.

Efectivamente, com o aparecimento das premissas de uma «sociedade-mundo, a humanidade vive hoje um momento crucial da sua história, ao ser confrontada com a complexidade de problemas que doravante são planetários e inter-relacionados. Responder a essas questões exige um ensino aberto que corresponda a cinco finalidades:

Formar «cabeças bem feitas», ensinar a condição humana e a cidadania da Terra, aprender a viver com a incerteza e a saber enfrentá-la.

Essas finalidades precisam, elas próprias, de uma reorganização em cadeia dos saberes a ensinar sobre a base das «novas humanidades» e uma reestruturação das formações que são chamadas a tornarem-se transdisciplinares, assim como dos métodos do pensamento, que devem aprender a religar e contextualizar sistematicamente os dados. É isso que se explica no primeiro livro da trilogia pedagógica, La Tête Bien Faite (1999), que aborda sobretudo a reestruturação dos níveis de ensino: básico, secundário e superior. O segundo livro, Relier les Connaissances (1999), apresenta as actas das jornadas temáticas organizadas entre 16 e 24 de Março de 1998, ao longo das quais investigadores de todas as disciplinas mostraram como a federação dos saberes actuais elimina a clivagem entre cultura científica e cultura humanística e constrói as «novas humanidades». Por fim, o último livro Les Sept Savoirs necéssaires à une Education du Futur (2000) retoma, de uma forma condensada e sintética, o essencial da obra de Edgar Morin, fechando num mesmo movimento a espiral que vai da obra ao ciclo pedagógico e do ciclo pedagógico à obra.

Repensar a educação inscreve-se, assim, para o autor, num projecto filosófico total que porém não ignora os riscos ideológicos em que incorre, nem as dificuldades epistemológicas associadas às mudanças paradigmáticas em curso.