Manuel Sérgio

“O Desporto como Valor e Educação do Futuro”

Edgar Morin é o Descartes dos nossos dias. Mas são vivas as diferenças entre um e outro. Coube a Descartes a glória de ter instaurado a dúvida metódica e ainda a criação de um “pitagorismo renovado”, para o qual pensar é calcular, raciocinar é medir, saber é geometrizar.

Morin, também pensador singular, criou um método para o pensamento complexo. E, mentalidade superior, original e profunda, pode considerar-se, hoje, pela difusão do seu pensamento, uma individualidade que o mundo científico e filosófico todo conhece. Edgar Morin acentua que “existe inadequação cada vez mais ampla entre os nossos saberes separados, partidos, compartimentados, entre disciplinas, e por outro lado as realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, globais, planetários.

Nesta situação, tornam-se invisíveis: os grandes complexos; as interacções e retroacções entre as partes e o todo; as entidades multidimensionais; os problemas essenciais” (Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 13). E, no auge da contumélia entre os hiperespecialistas que, para conhecer, fragmentam e separam e os que sustentam que todo o real é complexo, remata: «o conhecimento pertinente é aquele capaz de situar toda a informação no seu contexto e, se possível, no conjunto em que se inscreve» (op. cit., p. 15).

Por isso, assevera o mesmo autor: «a grande separação entre a cultura das humanidades e a cultura científica, iniciada no século XIX e agravada no século XX, causa graves consequências a uma e a outra» (op. cit., p. 17): esta suscitando teorias geniais, mas sem uma funda reflexão sobre o significado e o sentido da tecnociência; aquela apresentando substanciosas controvérsias de índole mais ou menos metafísica, mas sem o adequado fundamento científico.

O que fazer? Edgar Morin oferece-nos a sua opinião: «há a necessidade de um pensamento que compreenda que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e que o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes; que reconheça e trate os fenómenos multidimensionais, em vez de isolar, de forma mutilante, cada uma das suas dimensões; que reconheça e trate as realidades que são, ao mesmo tempo, solidárias e conflituais (...); que respeite o diverso, reconhecendo o uno» (op. cit., 95). E assim «a reforma do pensamento necessária gerará uma pensamento do contexto e do complexo. Gerará um pensamento que religue e que enfrente a incerteza» (op. cit., p. 99).

Edgar Morin não plagiou trabalho alheio, mas foi anunciado por duas revoluções científicas: a da física quântica, que deitou por terra o dogma determinista e introduziu a incerteza no conhecimento científico; o surgimento da complexidade, no conhecimento em geral.

O Desporto, como Valor e Educação do Futuro, deverá debater-se com questões fundamentais, a respeito de si mesmo. E, para tanto, há-de, também ele, criar um pensamento do contexto e do complexo – para que não seja uma actividade meramente física, mas uma actividade plenamente humana, isto é, física, biológica e antropossociológica...