Somos mais que o nosso cérebro?

No dia 13 de Setembro de 1848, o operário americano Phineas Gage foi acidentalmente atingido por uma barra de ferro que lhe perfurou o cérebro. Milagrosamente, Gage sobreviveu e recuperou do acidente. Mas o seu comportamento modificou-se radicalmente. Até então um homem sociável e cordato, passou a ter comportamentos anti-sociais e perdeu o sentido do bem e do mal. O seu caso tornou-se num dos mais famosos e importantes da medicina e, em especial, da neurologia. Os exames mostraram que a barra de ferro tinha provocado lesões irreversíveis no lobo pré-frontal e as questões que suscitou, muitas delas ainda hoje não cabalmente respondidas, foram decisivas para o desenvolvimento das pesquisas sobre a estrutura e o funcionamento do cérebro.

Há zonas do cérebro às quais podemos atribuir emoções, comportamentos e conceitos? É possível traçar o seu mapa? Como se diferenciam e se especializam? Quais são os processos físicos e químicos que nelas ocorrem e como é que são capazes de produzir fenómenos mentais ou de consciência? É possível agir sobre esses processos e regiões do cérebro e modificar comportamentos ou emoções?

Mas as questões apresentam-se ainda num outro plano: a consciência, a própria noção do “eu”, os mais elevados sentimentos, valores e produções do espírito humano, as nossas próprias decisões e acções podem ser reduzidas a processos físico-químicos que as determinam?

A consciência ética e a racionalidade que nos habituámos a ver como o que nos eleva e identifica como seres humanos, são afinal determinados por processos biológicos? Não recupera assim a natureza os seus direitos e troça da soberba daquele que se chamou a si próprio animal racional?

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